CIÊNCIA

Pesquisador da Embrapa relata conhecimento do Xingu sobre movimento aparente de Marte

Artigo publicado nesta sexta-feira (17) descreve como o povo Yawalapiti identifica o planeta como “estrela preguiçosa” e associa a observação do céu ao conhecimento da natureza

Um artigo assinado por Fábio de Oliveira Freitas, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, descreve o registro de um conhecimento tradicional observado no Território Indígena do Xingu. No texto, publicado nesta sexta-feira (17), o autor relata uma conversa ocorrida em 1997 com o cacique Aritana Yawalapiti sobre o comportamento aparente de Marte no céu noturno.

Segundo o pesquisador, o cacique apresentou o planeta como Witsitsi, expressão traduzida como “estrela preguiçosa”. A descrição, feita a partir da observação do céu, indicava que o astro “sobe” e “desce” em uma mesma faixa do firmamento, sem cruzar o céu como as demais estrelas visíveis ao longo do ano.

Do ponto de vista astronômico, o relato corresponde ao chamado movimento retrógrado aparente de Marte. Esse fenômeno é explicado pela diferença entre as órbitas da Terra e de Marte em torno do Sol, o que altera a posição observada do planeta no céu em determinados períodos.

Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!

No artigo, Freitas afirma que esse tipo de conhecimento resulta de observação acumulada e transmitida entre gerações. O texto também relaciona esse repertório a atividades práticas de planejamento e sobrevivência, como leitura dos ciclos sazonais, manejo agrícola e identificação de marcadores ambientais.

Entre os exemplos citados estão a escolha de sementes para a safra seguinte, a identificação de plântulas de mandioca originadas por semente, técnicas ligadas à germinação do pequi e a associação entre o início das chuvas e a revoada de formigas saúvas observada na aldeia Ypavu, do povo Kamayurá, em 2024.

A publicação indica que a observação tradicional pode contribuir para estudos sobre biodiversidade, agricultura e fenômenos naturais, desde que analisada com base técnica e em diálogo com instituições de pesquisa. O artigo não apresenta dados estatísticos consolidados sobre a adoção desse conhecimento em políticas públicas ou programas formais de ensino.

Fonte: embrapa.br